Compatibilidade de malhas e simplificações ao utilizar Edge Constraints nos programas CSI 

 

A introdução dos Edge Constraints nos programas de análise estrutural como o SAP2000 revolucionou a compatibilização de malhas não coincidentes. Essa funcionalidade reduz drasticamente o esforço manual dos engenheiros, trazendo maior agilidade na modelação de sistemas complexos. No entanto, o seu uso exige um entendimento sólido de seu comportamento e limitações para garantir análises confiáveis. 

Este artigo é dedicado a engenheiros de estruturas e explora os seguintes tópicos relacionados com os Edge Constraints: conceito, vantagens, simplificações possíveis e precauções na utilização no software CSI, como o SAP2000 e ETABS

 

O que são Edge Constraints

O Edge Constraint é um recurso implementado no software CSI que permite compatibilizar automaticamente deslocamentos e rotações de nós em malhas não compatíveis. Esse mecanismo é particularmente útil em situações onde a modelação manual de malhas coincidentes seria inviável ou complexa, como transições entre malhas refinadas e malhas mais grosseiras. 

 

Problema Inicial: Nós Não Coincidentes 

Quando duas malhas de elementos finitos são criadas sem compatibilização (por exemplo, uma malha refinada em contato com uma mais grosseira), surgem descontinuidades que comprometem a consistência dos resultados. Nestas situações, é necessário garantir a compatibilização dos deslocamentos e rotações. 

 

Solução Automática com Edge Constraints 

Os Edge Constraints solucionam automaticamente o problema de nós incompatíveis, ligando-os através de elementos virtuais que asseguram a compatibilidade de deslocamentos, rotações e, consequentemente, de esforços.  

Estes elementos virtuais são gerados ao longo dos bordos dos elementos finitos em contacto com nós de outras malhas, simulando a rigidez necessária sem introduzir rigidez adicional no modelo.  

Assim, quando os nós de uma malha estão desfasados de outra, mas são colineares com os bordos de quaisquer elementos Shell ou sólidos com a propriedade Edge Constraints atribuida, deslocam-se como se estivessem efetivamente ligados a esses elementos, tendo em conta a respetiva rigidez. 

 

Vantagens do uso de Edge Constraints 

O uso adequado dos Edge Constraints no SAP2000 traz diversas vantagens, incluindo: 

1. Compatibilidade Automática de Malhas 

Com os Edge Constraints, não há necessidade de redesenhar ou compatibilizar manualmente malhas de diferentes dimensões. Isto é particularmente benéfico em áreas complexas, como ligações entre lajes e paredes ou em zonas de transições estruturais menos comuns. 

2. Preservação da Rigidez Global do Modelo 

Embora sejam introduzidos elementos fictícios para assegurar a compatibilidade, estes são compensados por elementos adicionais que equilibram o sistema. Desta forma, a rigidez global do modelo não é alterada. 

3. Redução de Elementos de menor qualidade 

Esta funcionalidade evita a necessidade de criar elementos excessivamente alongados ou distorcidos para compatibilizar nós fisicamente distantes, o que melhora tanto a qualidade geral do modelo como a precisão dos resultados. 

Exemplos de malhas de menor qualidade

4. Simplificação da Modelação 

Permite o desenvolvimento de modelos complexos com menos subdivisões ou ajustes manuais, reduzindo o tempo de trabalho sem comprometer a precisão das análises. 

 

Cuidados e limitações na utilização de Edge Constraints 

Apesar das suas vantagens, o uso dos Edge Constraints requer atenção para evitar imprecisões nos resultados. A seguir, destacam-se algumas considerações importantes a serem observadas: 

1. Impacto do Princípio de Saint-Venant 

O Princípio de Saint-Venant refere que a influência de esforços/tensões reduz de forma significativa longe do ponto de aplicação. No entanto, em zonas de transição com malha incompatível, o tamanho dos elementos maiores da malha pode impactar os resultados locais. Recomenda-se: 

Posicionar as zonas de transição longe de regiões críticas onde resultados mais precisos são necessários. 

Lembrar que os elementos maiores influenciam os elementos menores numa distância proporcional à sua ordem de grandeza. 

2. Cuidado com Nós Notáveis 

Devemos ter o cuidado de fazer coincidir a malha nos pontos notáveis (contactos entre extremidades de elementos estruturais): 

No caso do ETABS e SAFE esta condição está praticamente garantida, pois a malha automaticamente gerada para as lajes é sempre compatível com as extremidades das paredes e com as localizações dos pilares. 

No caso do SAP2000 será aconselhável incluir os nós de extremidade de pilares e paredes na discretização automática ou manual das lajes. 

Na figura abaixo podemos ver um exemplo de um modelo SAP2000 onde se força a compatibilidade da malha nas extremidades das paredes, e se recorre aos Edge Constraints para compatibilizar os nós internos: 

 

um exemplo de um modelo SAP2000 onde se força a compatibilidade da malha nas extremidades das paredes, e se recorre aos Edge Constraints para compatibilizar os nós internos

3. Evitar Edge Constraints colineares com elementos de Barra (Vigas) 

Quando os Edge Constraints coincidem com elementos de viga, podem provocar resultados diferentes do esperado, especialmente nos diagramas de corte. Neste caso, parte da carga pode ser absorvida pelos elementos virtuais dos Edge Constraints o que originará diagramas de dentados. 

Solução

Se essa situação for inevitável, recomenda-se desativar a deformação por corte na formulação do elemento de barra. No entanto, essa simplificação deve ser validada para garantir que é adequada para a análise. 

 

Modificadores de rigidez em elementos de barra

Conclusão 

O recurso a Edge Constraints disponibiliza aos engenheiros de estruturas uma ferramenta poderosa para compatibilizar malhas de diferentes tamanhos, facilitando a modelação prática de estruturas complexas sem comprometer a precisão dos resultados. 

Porém, a aplicação dessa funcionalidade carece de conhecimento das suas limitações e atenção aos detalhes que podem influenciar os resultados. Quando utilizada de forma criteriosa, reduz significativamente o esforço de modelação e aumenta a confiabilidade das análises estruturais, especialmente se combinada com boas práticas de modelação e validação. 

Recomendação: Para uma explicação prática e visual desse recurso, sugere-se assistir ao vídeo Watch&Learn: Edge Constraints no SAP2000.